A ABECE emite o documento abaixo para que seja refletido e represente não só um novo desafio a ser assumido pelos engenheiros estruturais, mas uma sugestão de modelo para o funcionamento articulado e eficaz do setor. O objetivo principal não poderia ser outro: integrar o conhecimento e aperfeiçoar o exercício profissional. A ABECE conta com o apoio de todos os associados para a total difusão deste documento. Faça-o chegar a todas as esferas de seus relacionamentos profissionais e vamos à luta para engrandecer a engenharia brasileira.
CARTA ABERTA AO SETOR DA CONSTRUÇÃO CIVIL
Uma abertura para a engenharia estrutural
A indagação faz parte do nosso desenvolvimento. Na mais tenra idade, perguntamos quase tudo aos adultos e as respostas vêm como uma demonstração de que querem nosso desenvolvimento. Com o passar do tempo, contudo, naturalmente elas vão se tornando cada vez mais difíceis de serem obtidas, quer por nós mesmos, quer pela sociedade. Uma das perguntas difíceis de serem respondidas pode ser assim formulada: quais fatores determinam a velocidade do desenvolvimento tecnológico de um país? Seguramente, a resposta é composta de muitos elementos, tais como a ausência de política industrial, de falta de investimento em educação no seu sentido mais amplo, etc. Na engenharia de estruturas, um dos fatores que se atrela de maneira inequívoca a essa refutação é a desorganização existente na busca, implantação, maturação e consolidação do conhecimento. Para deixar mais claro:
· o conhecimento gerado nas universidades, em forma de dissertações de mestrado e teses de doutorado, fica isolado nas prateleiras das bibliotecas; quando muito seus conteúdos resumidos são publicados em algum congresso;
· as necessidades do setor produtivo – escritórios de projetos e construtoras – não são comunicadas, de maneira organizada, aos agentes e centros de desenvolvimento de pesquisas;
· os grupos de desenvolvimento de pesquisas – centrados em seus conteúdos historicamente vinculados a uma linha de pesquisa da Escola da qual pertencem – se baseiam muito pouco na real necessidade do “mercado”;
· a normalização, que no caso representa a consolidação do conhecimento, é conduzida com base na vontade quase filantrópica de grupos de profissionais da área, transformando o processo de atualização da normalização num episódio épico. Não é razoável que uma norma demore 20 anos para ser revisada. Há várias normas da ABNT, de nosso interesse, que estão nessa situação.
Assim, se por um lado, não se pode deixar de reconhecer a quantidade e a qualidade dos trabalhos acadêmicos brasileiros, por outro, as barreiras da desorganização atravancam o processo de espraiamento do conhecimento, fator esse que implica no centro da nossa questão: a velocidade do desenvolvimento. Observe-se que, sinteticamente, um dos grandes problemas do Brasil é a velocidade. Aqui tudo acontece devagar. Exemplo: em Pequim construíram cinco rodoanéis em 10 anos em função da necessidade crescente. Aqui…
Como a ABECE pode, com todas as entidades da engenharia civil brasileira, contribuir na solução dessa questão? Dessa reflexão, surgiu uma resposta, a seguir sinteticamente descrita, que deve ser considerada como uma semente a ser plantada já, sob o risco de permanecermos desarticulados como estamos por mais sabe-se lá quanto tempo.
1. Formação de uma rede de Comitês Técnicos, compostos por membros das entidades afins, cujos objetivos seriam:
a. Diagnosticar as necessidades do setor, em função do estado atual de sua organização, englobando desde a formação de profissionais, seu vínculo com as entidades, a difusão do conhecimento científico-tecnológico, as experiências profissionais do setor, as demandas relacionadas à normalização. Nesta fase, o Comitê Técnico poderá ser subdividido em Subcomitês;
b. Planejar ações de longo prazo (cinco a dez anos), associando às mesmas cronogramas e respectivos recursos financeiros necessários às realizações. Nessa fase dar-se-ia origem ao Plano de Ação;
c. Buscar, no “mercado” e no meio acadêmico, recursos humanos em
quantidade e qualidade suficientes para implementação dos Planos de Ação;
d. Identificar financiadores do processo;
e. Realizar reuniões periódicas do Comitê e Subcomitês (por exemplo: mensal);
f. Promover reuniões semestrais de consolidação de resultados;
g. Apresentar à ABNT texto-base de revisão de normas existentes ou de normas novas;
h. Comitês já em andamento: a ABECE buscará, com as entidades nas quais tais comitês estão em funcionamento, uma fórmula para que os resultados dos mesmos possam se inserir no contexto do planejamento no longo prazo pretendido.
2. Constituição de um Comitê Gestor formado pela ABECE e por todas as entidades envolvidas nos temas relacionados direta ou indiretamente aos Comitês, cujas responsabilidades seriam:
a. Dar suporte administrativo à realização das reuniões dos Comitês;
b. Buscar suporte financeiro para a promoção das atividades dos Comitês;
c. Estabelecer convênios com as Universidades e Centros de Pesquisa a fim de:
· Divulgar os conhecimentos gerados nesses centros;
· Comunicar a esses centros as demandas do “mercado”.
Com a implementação dessas ações, poderemos então dizer que a engenharia brasileira tem um modelo de funcionamento articulado e eficaz, visando à integração do conhecimento e o aperfeiçoamento de seu exercício profissional.
José Roberto Braguim
Presidente da ABECE