Egydio Hervé Neto

O concreto nas obras mais simples tem perdido muito de sua capacidade estrutural, estética e principalmente durabilidade, pela adoção de improvisos e práticas simplificadas, rebaixando este material à categoria de um “quebra-galho” para as obras comuns.

Paradoxalmente o motivo maior para a sua baixa valorização está exatamente na sua maior vantagem: solução de alta tecnologia de simples manuseio e aplicação.

Em outras palavras, é como se “todo mundo se sentisse capaz de fazer um concretinho!” Vai daí, pouca gente acredita que concreto exija Engenharia do Concreto, para funcionar devidamente.

Por esta distorção é que se explica o que vemos seguidamente por aí: superfícies do concreto com péssimo acabamento, porosidade, rugosidade, falhas, mudanças de cor, ninhos e descontinuidades, fissuras, trincas, cantos quebrados.

E mais: quando se mede a resistência descobre-se que está abaixo da exigência do Projeto, mesmo em obras de grande responsabilidade estrutural, como casas, edifícios, obras de arte, etc.

Recentemente o concreto no Mundo e também no Brasil passou por uma de suas maiores evoluções, em grande parte ligada a aditivos e adições a ele incorporados: concretos de alto desempenho mostram hoje a possibilidade de obter-se concretos com resistências equivalentes à do aço; estudos granulométricos e de trabalhabilidade permitem obter-se concretos praticamente impermeáveis, lisos ou texturizados da forma que se desejar através da evolução da superfície interna das fôrmas, projetadas e trabalhadas com desenhos, frisos, texturas, rugosas ou rigorosamente lisas; as cores fazem parte da composição do concreto e desenhos de diversas cores podem ser aplicados em obras correntes, através das soluções em fachadas pré-moldadas ou diretamente na moldagem in loco; mais recentemente tornou-se de acesso corrente o uso de concretos auto-adensáveis, que se nivelam com perfeição de acabamento, moldam-se às formas com exatidão e sem vazamentos, dispensam totalmente a vibração ou qualquer adensamento, trazendo velocidade, redução de mão de obra e eliminando os intoleráveis ruídos dos vibradores.

Tecnologicamente, e isto se traduz também na mudança das Normas Brasileiras e Internacionais, o concreto evoluiu na metodologia de cálculo, nos softwares de cálculo e de desenho, no desempenho e nos recursos à disposição de soluções para Projeto e Execução.

Tudo isto está disponível e regulamentado pelas Normas Brasileiras. No entanto, a grande maioria dos profissionais e da sociedade consumidora, não tira proveito desta evolução, em grande parte por pensar ainda que “concreto é simples e fácil, qualquer um faz…” O resultado dessa forma de pensar se traduz em péssimas obras, desrespeito aos especialistas e seus conhecimentos e, principalmente, perda de dinheiro e recursos naturais em aplicações pobres, que encarecem as obras, seja em custo direto imediato, seja ao longo do tempo, pela baixa durabilidade, elevado custo de manutenção e reparos, desvalorização patrimonial, etc.

Não é correto se iludir: concreto não é barato e para obter-se segurança, durabilidade e economia, é preciso empregar-se tecnologias de ponta que exigem estudo, experimentação e, principalmente, profissionais capacitados. Isto fica evidente através desta afirmativa de Aïtcin [1]:

“O concreto de alto desempenho não é um concreto barato que pode ser produzido por qualquer um; ao contrário, ele está se tornando um material de engenharia de alta tecnologia, cujas propriedades, desempenho e possibilidades continuam a nos deixar maravilhados.”

No entanto, se alguém está de plantão para afirmar que isto resulta em obras caras, antes se prepare para usar mais um pouco de Engenharia e fazer um raciocínio sistêmico, considerando a economia ao lado da técnica e vai encontrar uma resposta surpreendente. Vejamos o que diz o Yves Mailer, pesquisador francês, no prólogo da obra de Aïtcin:

“Nossos melhores construtores já entenderam perfeitamente esta lição, em termos de otimizar o dimensionamento das instalações, desenvolver os processos, melhorar a durabilidade, refinar as práticas de projeto e adaptar as formulações dos materiais e o comportamento de seus produtos a partir dos materiais básicos e das suas combinações. Um notável campo de progresso para a indústria da construção foi criado e continuará a fornecer oportunidades ainda maiores.”